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PARA TI PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Fernando Alves Farinha   
Terça, 21 Abril 2009 17:18

PARA TI, SENHOR JESUS DO VALE TERREIRO

Vê-se, sente-se, entranha-se. Há brilho nos olhares, sorrisos nos lábios, alegria a rodos, felicidade estampada nos rostos. Pelo ar, ecoam gargalhadas, estralejam foguetes. Pairam sentimentos de amizade, de cumplicidade, de saudade. Conterrâneos, familiares, amigos e amigas de várias gerações, reencontram-se, abraçam-se efusivamente, recordam tempos idos, provavelmente da infância. A aldeia, festiva e engalanada, veste as suas melhores roupagens. É dia de festa. Da festa, da Tua festa. A banda filarmónica, bem cedo o anuncia aos quatro ventos, como que a dizer “Ó gentes da minha terra, dorminhocos, acordai, despertai, não há festa como esta”.

Vindos dos quatro cantos de Portugal e do Mundo, para Ti confluem, convergem, pontualmente e sem falhas, num determinado domingo de Agosto e há longos, longos anos, muitos daqueles que um dia, por imperativos da vida, foram obrigados a deixar-Te, mas que nunca, nunca Te esqueceram. Bem pelo contrário, aglutinaste-os, polarizaste-os à Tua volta, fortaleceste os laços da diáspora, interna e externa, residentes e ausentes. 

Nesse dia mágico, em Tua honra, de memórias ancestrais, o povo venera-Te, festeja, exulta de alegria. Há festejos para todos os gostos, como Tu bem sabes, e, presumo, nem sequer Te importarás muito com a componente pagã a eles associada, pois julgo saber-Te de firmes convicções democráticas. Mas é, sem sombra de dúvida, a componente religiosa, a mais solene, a mais tocante, a mais contagiante, a mais marcante!   

Celebrada a missa, na Tua casa, na Tua capela, e em Teu louvor, o pároco celebrante, pede e recomenda respeito e compostura, pois dentro de momentos, vai sair a procissão, a Tua procissão. Silêncio sepulcral, funéreo. Rápida, espontânea e ordeiramente, os populares, fieis devotos, organizam-se, empunhando cada qual, o estandarte, bandeira, andor ou o que lhe for solicitado, para a solenidade do momento. E agora, sim, leitores amigos, preparem-se, pois ela, a procissão, vai sair, em todo o seu esplendor! 

Sob o palio protector, o pároco toma-Te nas mãos, afaga-Te, aconchega-Te nos seus paramentos. E, timidamente, após um ano de clausura, estás na rua, à luz do sol, feliz com o Teu povo. Afinal de contas, hoje não é um dia qualquer. Não, não é. É um dia único. Teu, simplesmente. À Tua vista, o povo, fervilha, agita-se, comprime-se. Há agora, não brilho, mas muitas, muitas lágrimas nos olhos. Até a Mãe Natureza, como que por artes mágicas, parece querer associar-se à Tua festa. Dois lendários eucaliptos, de grande porte, Tuas sentinelas e vigias permanentes, fieis guardas de honra, parecem mover-se, abrindo alas, aquietando-se  e curvando-se, à Tua passagem.  

Já na estrada, ao primeiro rufo, à primeira batida da banda filarmónica, o chão, firme e duro, treme, os cabelos eriçam-se e os corações batem mais forte. Começou o cortejo. E os pinheiros, como que a quererem integrá-lo, colaboram, dão uma ajuda. Não mexe, não bule uma agulha, na sua pacata quietude. E Tu, serena e paternalmente, vais ouvindo e registando os cânticos, as preces, as orações dos Teus devotos. Nada Te escapa. A banda filarmónica personifica e interpreta bem o momento. Dolente, cadenciada e pausadamente, toca, vai tocando, vai gemendo, num choro triste, pungente, quase. Devoto ou não, a ninguém És indiferente. O coração mais petrificado, mais empedernido, será agora, por momentos, de manteiga. Ouve-se, aqui e ali, um ai, um gemido, um lamento mais profundo, uma súplica mais sofrida, mais dorida, só Tu saberás porquê. E a procissão vai passando, e a banda vai tocando, triste, melancólica! Dentro de escassos minutos, Tu sabes, com a sensação do dever cumprido, regressarás, de mansinho, silencioso, aos Teus aposentos, à Tua casinha, para mais um ano de clausura e de intenso retiro espiritual, até à próxima saída precária e de curta duração, o ano seguinte, em princípio! 

Eu, comum mortal, passarei. Mas Tu não, perene e eterno, permanecerás e perdurarás para sempre, para todo o sempre, para além dos séculos, para além do tempo. Assim o queiram e saibam merecer-Te, as vindouras gerações, honrando-Te e honrando os seus antepassados. Assim seja, Ámen. E então sim, terei a certeza de que, com garbo, orgulho e altivez, ou não fosses Tu português, continuarás, firme e infinitamente, no Teu posto de vigia, no Teu terreiro de sempre, altaneiro e sobranceiro. Contemplando, velando e protegendo o Teu povo, o Teu povo de sempre, a Tua e nossa aldeia, a Tua e nossa terra, de seu nome Madeirã, simplesmente Aldeia central no coração de Portugal, dela serás sempre, até aos confins da eternidade, seu protector, seu padroeiro. Imorredoiro, Imortal!  

Sim, porque é de Ti e Contigo, caro conterrâneo, de todos O maior, que venho falando. E é para Ti, esta lembrança. Simples, humilde. Como TU, afinal, SENHOR JESUS DO VALE TERREIRO. 

Fernando Alves Farinha 

Amora, Abril de 2009

 

Actualizado em Sábado, 25 Abril 2009 18:42