Você está aqui: Entrada Balada de Ternura

Visualizações

Visualizações de conteúdos : 224386

Visitas

mod_vvisit_counterHoje20
mod_vvisit_counterEsta Semana147
mod_vvisit_counterEste Mês1318
mod_vvisit_counterSempre175268
Balada de Ternura PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Fernando Alves Farinha   
Sexta, 02 Julho 2010 17:22

Ó sino da minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada,

Soa dentro da minha alma.

(…)

A cada pancada tua,

Vibrante no céu aberto,

Sinto mais longe o passado,

Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

CARTA DE AMOR, BALADA DE TERNURA, SERENATA DE SAUDADE

Sim, eu sei, já foi há muito tempo. Cinquenta anos, precisamente, que te conheci. Jovial, alegre, brincalhona, como se fosses apenas mais uma amiga de infância, ou um qualquer namorico de adolescente imberbe, nunca te esqueci, ficarás para sempre, no álbum das minhas memórias, até ao fim dos meus dias, até que me lembre de mim. Cabelo negro, por vezes de carrapito, bem moreninha, ou não fosses tu mulher da Beira, (… sou como o granito, bem rija e morena…) olhos marotos, malandrecos, sorriso aberto, rasgado, de orelha a orelha, saia por cima do joelho, perna roliça, bem torneada, e meneando as ancas, estou a ver-te, a ouvir-te, serpenteando por entre as cadeiras da sala, a cozinha, e as outras divisões da casa.

“Ó Fernandinho, quem foi o primeiro rei de Portugal?”. “E quantas dinastias houve?”. “Ó Fernandinho, onde é que nasce o rio Tejo?”. “E o Mondego?”. ´”Ó Fernandinho, mostra lá os trabalhos de casa, as palavras difíceis, e os problemas!”. E na sala de aula: -“Ó Fernandinho, aponta aí no mapa de Portugal, a linha da Beira Baixa!”. “ E agora vem ao quadro!”. Etc, etc, etc… Uff… que melga! Que melga abençoada me tocou em sorte, na então chamada quarta classe da instrução primária, no já longínquo ano sessenta, do século passado! Bendita melga, bendita sejas tu!

Como poderei esquecer-te! A casa onde vivias, na aldeia que me viu nascer, (ainda te lembras dela, meu amor, do seu nome, (eu digo-te baixinho, ao ouvido, MADEIRÃ), das suas fontes e bicas, das sete bicas da fonte, e que, provavelmente por qualquer capricho do destino, seja lá isso o que for, um dia se cruzou na tua vida, no teu caminho, no teu percurso de docente, era pau para toda a obra, toda a colher! Admirável! Modesta embora, era polivalente, de usos múltiplos. Era conforto, pouco que fosse, e aconchego de lar, era escola improvisada, precária, e era até, “atelier” de alta costura! Sim, alta costura, tecida pelas mãos hábeis da costureira de então, modista de alto coturno, alto gabarito, de fazer inveja aos melhores estilistas e criadores da época, a nossa amiga comum, mundialmente conhecida como ILDA CALADA, simplesmente.

Por qualquer motivo, que ainda hoje me escapa, era absolutamente incapaz, ao tempo, de articular, de pronunciar a letra “C”, dificuldade só ultrapassada, uns anitos depois. E tu, sabendo como ninguém, dessa minha dificuldade, brincavas, exploravas e glosavas o tema, até à exaustão! Deliravas, adoravas, davas tudo para ouvir a minha resposta, piscando o olho à Ilda, que ainda hoje fala nisso, à tua pergunta, mil vezes repetida:-“ Para onde é que tu vais, Fernandinho?” :-“Vou pa ..asa!”. E a Ilda, ajudando à festa:- “Vais para onde Fernando?”:-“Vou pa ..asa, Senhora Ilda, já disse!” : - “Ah, vais pa ..asa, atão vai, meu menino!” . “Oh que duas melgas!”, “Oh santa ingenuidade!”.

Quarta classe feita, diploma na mão, missão cumprida, de parte a parte, chegou a hora da despedida, da separação! Por norma dolorosa, quando não trágica, por vezes, Romeu e Julieta que o digam, chega sempre, fatalmente, um dia, para todos, até para os amantes. A nossa, foi suave, serena, tranquila! Talvez não te recordes, meu amor! Foi em Oleiros, à porta do café Alvelos, nove horas da manhã, sensivelmente, num qualquer dia de princípios de Julho de sessenta e um, a caminho de Castelo Branco, a caminho do então obrigatório exame de admissão aos Liceus! Dois beijos, duas beijocas, selaram o adeus! “Adeus Fernandinho, adeus meu amor, boa sorte pró exame, sejas muito feliz, vida fora!”. E essas palavras, de quase meio século, foram as últimas que te ouvi, até hoje. A vida, nos seus encontros e desencontros, assim o quis, assim o ditou! Nunca mais te vi, nunca mais ouvi a tua voz, mas ficaram gravadas a letras de oiro e para sempre, no meu “chip” sensorial!

E hoje, no conforto, no remanso do teu lar e recheada de netinhos, quando, provavelmente, já fios de neve, matizam, pintam de saudade o teu cabelo, outrora bem negro, quando os meus olhos, bem o sei, já não têm o brilho de outrora, ainda assim, e tal como o “zarolho”, nosso poeta maior, (… não te esqueças, nunca, daquele amor ardente, que já nos olhos meus, tão puro viste!...)

“Todas as cartas de amor, são ridículas”, escreveu um dia, Fernando Pessoa, outra figura maior da língua portuguesa, a sua Pátria, como ele próprio disse. Mas, pese embora toda a sua genialidade, permito-me discordar, aqui falhou, errou redondamente, esqueceu-se de uma regra basilar, elementar: - “Não há regra, sem excepcção”. Como esta carta, precisamente. Poderá ser tudo, menos ridícula! (…Sim, meu caro Fernando Pessoa, meu caro Fernando, meu caro homónimo, agora não percebi, confesso, o porquê desse salto, desse solavanco, na tua tumba tumular! Que diabo, por uma vez na vida, reconhece o erro, admite que erraste, porra! Um pouco de humildade, não fica mal a ninguém, nem mesmo a ti! Embora personagem complexa, eu sei, não foste Deus, nem sequer a santo chegaste! Pelo menos que eu saiba, ainda não foste canonizado! Foste, isso sim, um mortal fora do comum, puro génio, mas, ainda assim, sujeito a erro, como qualquer outro da tua espécie, a humana. Mas quem sou eu, pobre de mim, longe de mim, dar-te de lições de filosofia! Pronto, não se fala mais nisso! Não te chateis, não te zangues comigo, desculpa ter-te acordado, ter interrompido um sono de setenta e cinco anos! Um dia destes, encontramo-nos, fazemos as pazes, fumamos o cachimbo da paz e bebemos um copo, no Martinho da Arcada, ou na Brasileira do Chiado, é-me indiferente, eu também os conheço, já frequentei os dois! Vá, vai lá, continua a dormir e, por favor, não me interrompas, não estremeças mais, que eu estou a escrever à minha amada! Tu também gostavas de ser interrompido, quando estavas a escrever à tua OFÉLIA, diz?! Ah bom!... Pronto, adeus, dorme bem, e já agora, não tenhas muita pressa em beber o tal copo comigo, bem podes esperar, que eu, por enquanto, não tenho sede nenhuma, confesso!...) Se estivesse nas minhas mãos, este morto de sede, bem podia esperar sentado, nem que fosse junto à fonte de Jacob, fazendo companhia a um outro sedento bem mais famoso que ele, Jesus Cristo, de seu nome, JC para os amigos, velho cliente da fonte, seu frequentador habitual, obsessivo e compulsivo, não por quaisquer propriedades excepcionais da água, da sua qualidade, nada disso, mas apenas pela sua amada, a piedosa, a sequiosa Samaritana, sedenta, também ela, não de água, mas de amor! (…Sim, que a história da fonte, da ida à fonte, é uma treta, é uma história da carochinha, ainda por cima, mal contada! Qual sede, qual carapuça! Tal como na minha aldeia, em tempos idos, a ida à fonte, prática corrente e fruta da época, era, muitas vezes, apenas pretexto, desculpa esfarrapada, gato escondido com rabo de fora, para o marmelanço! Sei do que falo, julgo ter sido até, embora já tenham decorrido dois mil anos, testemunha ocular, presencial, dessas poucas vergonhas na via pública, e logo, coitado, junto à fonte do pobre Jacob!...Um simples beijo, vejam lá!... Ai, se cá voltasses !!!...).
Todo o amor é, por natureza, intimista, claro, mas não necessariamente secreto! E este, ainda que o fosse, deixaria de o ser a partir deste momento, porque qualquer carta, mesmo de amor, pede, exige um envelope, e este, um destinatário!
Dobrado e fechado o envelope, é chegada a hora de dobrar também a língua! Nada que não se resolva, com a troca de uma simples, uma única letra! Sim, porque todo este meu cântico, de carinho, de profunda gratidão, é, todo ele, não para ti, mas, PARA SI D. ODETE CRUZ MATOS, minha querida e saudosa professora. Com um imenso mar de ternura, e um enorme, gigantesco, oceano de saudade, Até sempre, D. Odete!

Fernando Alves Farinha

Amora, Junho de 2010

Actualizado em Sábado, 03 Julho 2010 22:00